É verdade! Papo de homem brasileiro está cada dia mais difícil de aturar.
Vou explicar. Entrei na cozinha cumprimentei o grupo, exclusivamente de homens, que já estava bem instalado, cada um com o seu copo. E não posso reclamar da recepção. Sorrisos simpáticos ao me receberem.
- O Brasil te fez bem, disse um mais animadinho ao me ver em minha saia de couro super-poderosa que segura T-U-D-O!
Entrei na brincadeira e respondi, fútil até o último gole de Champagne: - Ah! Lá a gente pode ser dondoca. Fiz mão, pé, cabelo, massagem... tudo tem suas compensações. E depois vamos combinar que com dinheiro no Rio você pode vestir a fantasia de princesa, ou pelo menos de alguém da alta burguesia. Falei exibindo unhas irretocáveis.
Tudo ia bem até eu sacar o papo de homem que estava rolando: mulher. Óbvio.
- Fulana! Foi minha aluna, disse um senhor bastante castigado pelos seus 40 e poucos anos, referindo-se a esposa. E continuou. - Ah! Só pegava turma do segundo grau prá cima, concluiu triumfante, coçando os poucos cabelos que lhe restavam.
- Ciclana! Quase foi minha aluna, respondeu o Animado, um pouco menos castigado, mas...
No que só me restou dizer, com um sorriso amarelo: - Vocês não tem jeito.
- Ah! Qualé Luciana. Quem gosta de coisa velha?, me disse o mais castigado de todos.
- As mulheres de vocês! - pensei, mas não disse por pouco. Sai na minha, afinal, ja esta na hora de parar de ser espanta rodinha.
Porque o brasileiro em geral tem tanto medo de amadurecer? E pior se agarra desesperadamente na juventude alheia como um vampiro de almas jovens.
Um fenômeno ,e acontece com uma certa regularidade e que eu entitulei de Sonorite Trompe. O fenômeno é o seguinte: eu ouço uma coisa sem qualquer conecção aparente com a pessoa que emite o som. É como se eu estivesse assistindo um filme e derepente, erraram na dublagem. O que é mais curiosa ainda é que o tal fenômeno só me ocorre em situações bem específicas: conversa de homem brasileiro. Do tipo pouco edificadoras.
A última fez em que presenciei este fenômeno foi durante um Cha de Bebe. Isso mesmo. As mulheres foram convocadas para um Cha de Bebe e os homens estavam lá. Foram juntos. Estraíssimo, mas até aí tudo bem, durante as "brincadeiras" eles ficaram no andar de baixo da casa - da onde nunca deveriam ter saido - até a comida ser liberada.
Foi inevitável. Mal os homens começaram a encher a pança - somando todas havia espaço para um almoxarifado de um Super C da vida - e o Sonorité trompeé começou a se formar: aquele bando de homem barrigudo falando da decadência alheia. Claro da decadência da mulher alheia. Falavam de famosas beldades brasileiras com total descaso. Das mulheres dos amigos presentes eles falam em casa, com as suas próprias mulheres.
- Fulâna, vi na quadra uma vez. Um bagulho!, disse um enchendo a cara de Cola enquanto destruía um Patrimôneo Nacional.
- Hum! Aquela é tao magra que parece que vai quebrar!Retrucou outro em relação a nossa modelo número 1 ou 2, não sei precisar.
Mas durante essas manifestações do fenômeno o comentário que sempre me provocava o maior espanto e quando alguém diz. E alguém sempre diz: -... ela esta uma velha! Claro existem variações do tipo: - Velháca. Acabada. Uma múmia. E dizem até que esqueceu de morrer. Porque para camaradas velha boa é velha morta.
De acordo com o papo daqueles homens, que frequentam Chá de Bebê, comentei com uma colega: - acho que eles trouxeram essas mulheres só para não nos humilhar. Na verdade eles devem ser casados com umas deusas do Olimpo que não saem da cama por menos de 10 mil dólares. Mas não era só mais um caso de Sonorité Trompeé.
SOCORRO! Aonde estão os homens que discutem idéias, conceitos? Que analizam fatos, história? Que comentam livros, música, obras de arte em geral? Se me lembro bem, falar da estética alheia era o tipo de conversa que mulheres desocupadas tinham e que os homens ironizavam, não era?!
Quero o meu pai de volta! E agora! E com ele Martin Luther King, Tom Jobim, Vinivius, Monteiro Lobato... Quero um psiquiatra, paranormal, um pastor. Quero que esse fenômeno pare de me perseguir. Quero poder voltar a ouvir o papo bom dos brasileiros bons de papos.
Volto a minha reflexão original - Porque homem brasileiro tem tanto medo de amadurecer? Eu disse amadurecer! Porque envelhecer e inevitável e um dia eles se dão conta de que estão por um fio para cair do pé. E acabam por assumir, mesmo que contrariados de que estão velhos, "mas com alma de jovem".
Na minha viagem ao Brasil fiquei super feliz ao encontrar, por acaso, na esquina do prédio em que a minha irmã um dos meus grandes encontros na vida, o Daniel. Ele estava com o filho, a cara dele, agora com oito anos de idade, casadíssimo, pela segunda vez. Parecia feliz. Ficamos de sair para colocar a vida em dia.
Conheci o Daniel no segundo periodo da faculdade de jornalismo. Eu migrava do curso de História, ele do de Administração. Ele era o mais popular da turma, eu a menos. Muito politizada, oriunda da Zona Sul numa universidade de subúrbio, tinha o melhor carro, viajava todas as férias para o exterior. Era uma das mais velhas e impacientes da turma. E só para piorar faltava aula direto e, ainda assim, conseguia as melhores notas. Eu era insuportável. Menos para o Daniel e um pequeno grupo que se uniu e deslanchou no mundo da publicidade. Um pessoal bacana mesmo. Por fim, ninguém entendia minha ligação com o Daniel boa praca, sempre sem dinheiro e que, aparentemente, não levava nada a sério.
Para compreender a nossa relação havia duas correntes de pensamento. Claro, em se tratando de Brasil, as duas estavam relacionadas à sexo. No curso a galera achava que rolava um romance, ou ao menos uns pegas, se e que vôce me entende. Meus colegas de além universade tinham certeza de que ele era a "minha melhor amiga", ja que eu tinha namorado (prá lá de problemático) na época e sempre fui careta. "- Um absurdo ficar com duas pessoas ao mesmo tempo".
O pessoal que trabalhava comigo na época, só homens, tinha certeza de que o Dandam era viado. Muito artístico, falastrão, brincos e roupas coloridas. Sem medo de demonstrar afeição, transbordante de vida. E ainda por cima com esse apelido: Dandam. E só para concluir o meu irmão Marcus Vinícius - o Primogénito, bom lembrar - garantia. - Viado adora andar com mulher grande. Chama atenção.
Daniel e eu não éramos nem caso nem descaso. Eramos irmãos. A gente se entendia e compartilhava o mesmo entusiasmo por idéias, a mesma alegria pelas descobertas, um interesse sincero em compreender as coisas. A nossa maneira éramos filosoficos e visionários.
Lembro de quando minha mãe ficava na minha cola e ele me dizia: - você nao soube educar os seus pais. Precisa corrigir isso antes que seja tarde demais. Minha mãe nem pergunta mais onde eu vou, a que horas volto, nem resmunga porque eu não liguei. Ela ja aprendeu que não adianta. Você precisa fazer o mesmo, tentava me ensinar.
- Não tenho coragem, respondia. A cidade é violenta e depoid moro na casa deles, acho justo dar satisfação.
- Então atura, era categórico.
Daniel foi meu padrinho de casamento, mas não sabia nem mesmo que eu estava divorsiada.
Comigo e o Daniel é assim. Nutrimos um sentimento de amizade daqueles em que os anos de distância não abalam. Mudamos de endereço, de telefone, de emprego. Perdemos contato... e derepente nos encontramos em uma esquina. É o lindo milagre da amizade.
Daniel tem uma carreira eclética, com uma tragetória profissional que inclui grandes e pequenos jornais; anos em uma agência de publicidade, co-fundada por ele, e agora era gerente de comunicação de uma grande multinacional brasileira. Tava se segurando na crise mundial, tendo que cortar despesas, em suma todas as atividades que a empresa promovia e que eram as que ele mais curtia - e ainda escutar o Lula dizer que a crise mundial não atingia o Brasil -, mas nada que abalasse seu ânimo. Eu segui um caminho diferente depois de anos como jornalista organizacional decidi assumir o que gostava: Comunicacao Internacional. A mudanca para o Canadá e o divórsio, devo admitir, vieram a calhar. Como costumo dizer: - Estou solta no mundo. Minha vida ficou sob medida para o mundo. Carrego a minha criança numa mão e a mala na outra. E lá vamos nós, Maria et Moi, mundo afora.
Durante o rápido encontro na esquina, trocamos telefones e ficamos de nos ver antes do meu retorno ao Canadá. Quinta -feira às 14 horas ele me buscou na saída do mêtro Sãens Peña e demos um giro por Santa Teresa. Foi ótimo reencontrar o Daniel. Ele me contou que se casara: - de verdade. No civil e no religioso. "Tudo direitinho". Mas havia se separado após um ano e meio, e agora dois meses depois da separação tinha voltado com a esposa, de 20 anos de idade, sem profissão e que, segundo ele, nao pode me conhecer porque eu sou má influência para ela. - Ela quer trabalhar com Relações Internacionais e quer ganhar o mundo. Ela não pode conhecer você, foi categórico.
-Ela fala idiomas, Daniel?
- Nada, disse arrastado. Ainda nem entrou na faculdade. Antes de me conhecer morava com a avó em Campo Grande.
- Então ela ainda tem um longo caminho a seguir. Tem que cursar a faculdade aprender línguas, se especializar..., analisei.
- Isso você pode dizer para ela.
E continuou. - Ela tem 20 anos, mas sou louco por ela. Ela é uma mulher sabe?!
-Ah qualé Daniel?! Você tá amarradão tudo bem. Mas não vem com esse papo. Assume o risco e pronto.
Nesse momento, para minha surpresa, saiu da boca dele uma das declaracoes que mais me chocaram nos últimos tempos: "-Ela tem o frescor que eu não quero perder".
Não pude acreditar no que estava ouvindo. Aquele cara bacana, antenado, ativo, ainda na casa dos 30... Meu Deus seria mais um caso angustiante de Sonorité Trompeé?