terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Natal fora de época - se carnaval pode...
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Saint-Valentin - La Fête de l'Amitié
Cerca de duas semanas atrás recebi um convite que me pareceu simpático e dispretencioso. O pai de uma amiguinha de créche da Maria nos convidou para jantar no dia 14 próximo. O jantar seria na casa dele, onde estariam também um amigo cnadense e a esposa, Cláudia, uma brasileira com quem tem dois filhos. Como sempre não parei para pensar, e consultar agenda no meu caso? Fala sério! Instantâneamente disse: - Claro!
- Tem certeza?, ainda perguntou Érick, o pai.
- Claro!, respondi
- Então dia 14. Escreva na sua agenda.
- Prá que? Nunca consulto mesmo, pensei.
Alguns dias passaram e fomos a uma festa família para comemorar os cinco aninhos do Rafael, um brasileirinho louco por carros, que mora no 304 do nosso prédio. Lá Tatiana, a brasileira do 204, que trouxe todos os outros para o prédio e a quem nós chamamos de síndica me comunicou.
- Sábado vamos aproveitar para comemorar o encontro da Juliana e do Rodrigo.
- Legal!, disse.
- Ah! Luciana a Matilde não conseguiu falar com você e pediu para eu te falar que sábado é aniversário dela e eles vão sair para dançar, completou.
- Legal! Tô precisando dançar. Final de Semana promete. Também tenho um jantar na Sexta. Tatiana, você vai dançar?
- Ainda não sei?
- Quem vai cuidar dos seus filhos?
- Não sei, porque todo mundo tem programa? Saint-Valentin!
- Neste sábado?
- É minha filha, dia 14!, revelou a Ana Paula, a dona da casa.
- Dia 14 é Saint-Valentin?, perguntei
- É! O Dia dos Namorados deles.
- Meu Deus! O que eu fiz?, pensei.
Assim que saí do apartamento, ainda no corredor, telefonei para o meu consultor no que se refere a assuntos québecoises.
- Alô.
- Jean-David, acho que fiz uma besteira.
Do outro lado da linha sorrisos: - Quoi?
- O pai de uma amiga da créche da Maria Antônia me convidou para jantar na noite de Saint-Valentin. E eu aceitei.
- Você se interessa por ele?
- Pas de tout!
- Então porque você aceitou?
- Ele é gentil eu não achei que era nada de mais um jantar.
- Cherrie! Na noite de Saint-Valentin?
- Eu não sabia que era Saint-Valentin. No Brasil o dia dos amoureux é em junho.
- Pas vrais?!
- E agora o que eu faço?
- Você quem decide.
- Aqui jantar com alguém no dia de Saint-Valentin que peso tem?
- Depende.
- Cheri, você não está ajudando muito.
- Cherie, o que você quer que eu diga?
- QUal o peso de uma decisão desta?
- Nenhum. Vai e vê. Aqui no Québec uma mulher pode dizer não a qualquer momento.
- A matilde me convidou para sair para dançar no Sábado. Tá afim?
- Você não vai ao jantar?
- Depois!
- Acho que não. Eu. Dançar. Vou ter que beber para isso. E eu já não estou bem. Acho que vou ver meu pai.
- Ok.
Sexta-Feira deixo Maria na Créche e tem um papel no seu armário: "Invitation: Samedi, 14 févrie, 17:30h, chez nous..."
Sábado chegou. Coloquei um belo vestido estampado com mangas 3/4, e altura também 3/4. Feminino o bastante para uma noite de sábado, mas formal o suficiente para não agravar qualquer possibilidade de clima de "jantar romântico".
Maria et Moi, fomos as primeiras a chegar, estavamo cinco minutos adiantadas. Cinco minutos depois a outra família chegou. Pontualmente.
Muito simpático, Tom - Como Tom Jobin, disse- é um canadense, de Calgarie, que conhece não só o idioma português como a música brasileira, pela qual é apaixonado. Conheceu a Claúdia no Brasil quando foi aprender a tocar Bossa Nova no violão. Era amigo de um produtor musical do Rio, que foi assassinado em sua casa na serra por causa de uma televisão. Me contou abaixando a cabeço e fazendo sinal negativo com a cabeça. Claúdia é fonodióloga e trabalha para o governo. Tem dificuldades com o francês, mas apesar de ter direito a escola inglesa por causa do marido, optou pela francesa, porque achou melhor. Bem mais reservada que Tom descobri que estudamos na mesma escola de Ballet na rua Oitis, na Gávea. Fora isso nossas afinidades pareciam se resumir ao fato de sermos cariocas da Zona Sul do Rio que residiam em Montréal. Até que falamos sobre um habito que gerava certa confusão na cabeça dos Canadenses, na verdade na cabeça de qualquer gringo: o sorriso largo da brasileira. A que ela chama de " ...Blum Small", e me sugeriu que eu escrevesse sobre isso.
O fondu estava perfeito. Viva a origem francesa do québécois! E me escondi parte da noite atrás do tema Brasil, até que relaxei e percebi que não havia nada com que me preocupar. A noite agradável, a casa cheia de crianças, música brasileira boa tocando, amigos à mesa. Era Saint-Valentin, não Dia dos Namorados. O Saint-Valentin era um dia para celebrar o amor, mesmo o fraterno.
Érick trabalhou duro para nos agradar, embora tenha me parecido um pouco perdido na sua própria casa - era o único que não falava nada de português- e me pareceu um pouco frustrado porque ninguém se mostrou disposto a provar os vinhos que ele selecionou. Em compensação aprendeu um pouco sobre a música brasileira com seu entusiasmado colega de Squache, que o descreveu como um artista das quadras. Um dos melhores atletas de Montréal.
Foi agradável. Deixei o local na mesma hora que todos os outros: - tenhos mais outras duas festas, disse.
- Vai ficar cansada, brincou Tom.
- Você quer que eu guarde a sua filha. Ela pode dormir aqui com a Fanny.
- Não, obrigada. Já está tudo arranjado.
- Você pode me chamar um taxi?
- Claro!
Fui direto para o aniversário do Rodrigo e da Juliana, no caminho tive a sensação de que aqule Érick trabalhará duro e não recebera a devida atenção. Foi a primeira vez que senti a necessidade de começar a dizer não.
Sonorité trompeé: um fenômeno angustiante
Vou explicar. Entrei na cozinha cumprimentei o grupo, exclusivamente de homens, que já estava bem instalado, cada um com o seu copo. E não posso reclamar da recepção. Sorrisos simpáticos ao me receberem.
- O Brasil te fez bem, disse um mais animadinho ao me ver em minha saia de couro super-poderosa que segura T-U-D-O!
Tudo ia bem até eu sacar o papo de homem que estava rolando: mulher. Óbvio.
- Fulana! Foi minha aluna, disse um senhor bastante castigado pelos seus 40 e poucos anos, referindo-se a esposa. E continuou. - Ah! Só pegava turma do segundo grau prá cima, concluiu triumfante, coçando os poucos cabelos que lhe restavam.
- Ciclana! Quase foi minha aluna, respondeu o Animado, um pouco menos castigado, mas...
No que só me restou dizer, com um sorriso amarelo: - Vocês não tem jeito.
- Ah! Qualé Luciana. Quem gosta de coisa velha?, me disse o mais castigado de todos.
- As mulheres de vocês! - pensei, mas não disse por pouco. Sai na minha, afinal, ja esta na hora de parar de ser espanta rodinha.
Porque o brasileiro em geral tem tanto medo de amadurecer? E pior se agarra desesperadamente na juventude alheia como um vampiro de almas jovens.
A última fez em que presenciei este fenômeno foi durante um Cha de Bebe. Isso mesmo. As mulheres foram convocadas para um Cha de Bebe e os homens estavam lá. Foram juntos. Estraíssimo, mas até aí tudo bem, durante as "brincadeiras" eles ficaram no andar de baixo da casa - da onde nunca deveriam ter saido - até a comida ser liberada.
Foi inevitável. Mal os homens começaram a encher a pança - somando todas havia espaço para um almoxarifado de um Super C da vida - e o Sonorité trompeé começou a se formar: aquele bando de homem barrigudo falando da decadência alheia. Claro da decadência da mulher alheia. Falavam de famosas beldades brasileiras com total descaso. Das mulheres dos amigos presentes eles falam em casa, com as suas próprias mulheres.
- Fulâna, vi na quadra uma vez. Um bagulho!, disse um enchendo a cara de Cola enquanto destruía um Patrimôneo Nacional.
- Hum! Aquela é tao magra que parece que vai quebrar!Retrucou outro em relação a nossa modelo número 1 ou 2, não sei precisar.
Mas durante essas manifestações do fenômeno o comentário que sempre me provocava o maior espanto e quando alguém diz. E alguém sempre diz: -... ela esta uma velha! Claro existem variações do tipo: - Velháca. Acabada. Uma múmia. E dizem até que esqueceu de morrer. Porque para camaradas velha boa é velha morta.
De acordo com o papo daqueles homens, que frequentam Chá de Bebê, comentei com uma colega: - acho que eles trouxeram essas mulheres só para não nos humilhar. Na verdade eles devem ser casados com umas deusas do Olimpo que não saem da cama por menos de 10 mil dólares. Mas não era só mais um caso de Sonorité Trompeé.
SOCORRO! Aonde estão os homens que discutem idéias, conceitos? Que analizam fatos, história? Que comentam livros, música, obras de arte em geral? Se me lembro bem, falar da estética alheia era o tipo de conversa que mulheres desocupadas tinham e que os homens ironizavam, não era?!
Quero o meu pai de volta! E agora! E com ele Martin Luther King, Tom Jobim, Vinivius, Monteiro Lobato... Quero um psiquiatra, paranormal, um pastor. Quero que esse fenômeno pare de me perseguir. Quero poder voltar a ouvir o papo bom dos brasileiros bons de papos.
Volto a minha reflexão original - Porque homem brasileiro tem tanto medo de amadurecer? Eu disse amadurecer! Porque envelhecer e inevitável e um dia eles se dão conta de que estão por um fio para cair do pé. E acabam por assumir, mesmo que contrariados de que estão velhos, "mas com alma de jovem".
Na minha viagem ao Brasil fiquei super feliz ao encontrar, por acaso, na esquina do prédio em que a minha irmã um dos meus grandes encontros na vida, o Daniel. Ele estava com o filho, a cara dele, agora com oito anos de idade, casadíssimo, pela segunda vez. Parecia feliz. Ficamos de sair para colocar a vida em dia.
Conheci o Daniel no segundo periodo da faculdade de jornalismo. Eu migrava do curso de História, ele do de Administração. Ele era o mais popular da turma, eu a menos. Muito politizada, oriunda da Zona Sul numa universidade de subúrbio, tinha o melhor carro, viajava todas as férias para o exterior. Era uma das mais velhas e impacientes da turma. E só para piorar faltava aula direto e, ainda assim, conseguia as melhores notas. Eu era insuportável. Menos para o Daniel e um pequeno grupo que se uniu e deslanchou no mundo da publicidade. Um pessoal bacana mesmo. Por fim, ninguém entendia minha ligação com o Daniel boa praca, sempre sem dinheiro e que, aparentemente, não levava nada a sério.
Para compreender a nossa relação havia duas correntes de pensamento. Claro, em se tratando de Brasil, as duas estavam relacionadas à sexo. No curso a galera achava que rolava um romance, ou ao menos uns pegas, se e que vôce me entende. Meus colegas de além universade tinham certeza de que ele era a "minha melhor amiga", ja que eu tinha namorado (prá lá de problemático) na época e sempre fui careta. "- Um absurdo ficar com duas pessoas ao mesmo tempo".
O pessoal que trabalhava comigo na época, só homens, tinha certeza de que o Dandam era viado. Muito artístico, falastrão, brincos e roupas coloridas. Sem medo de demonstrar afeição, transbordante de vida. E ainda por cima com esse apelido: Dandam. E só para concluir o meu irmão Marcus Vinícius - o Primogénito, bom lembrar - garantia. - Viado adora andar com mulher grande. Chama atenção.
Daniel e eu não éramos nem caso nem descaso. Eramos irmãos. A gente se entendia e compartilhava o mesmo entusiasmo por idéias, a mesma alegria pelas descobertas, um interesse sincero em compreender as coisas. A nossa maneira éramos filosoficos e visionários.
Lembro de quando minha mãe ficava na minha cola e ele me dizia: - você nao soube educar os seus pais. Precisa corrigir isso antes que seja tarde demais. Minha mãe nem pergunta mais onde eu vou, a que horas volto, nem resmunga porque eu não liguei. Ela ja aprendeu que não adianta. Você precisa fazer o mesmo, tentava me ensinar.
- Não tenho coragem, respondia. A cidade é violenta e depoid moro na casa deles, acho justo dar satisfação.
- Então atura, era categórico.
Daniel foi meu padrinho de casamento, mas não sabia nem mesmo que eu estava divorsiada.
Comigo e o Daniel é assim. Nutrimos um sentimento de amizade daqueles em que os anos de distância não abalam. Mudamos de endereço, de telefone, de emprego. Perdemos contato... e derepente nos encontramos em uma esquina. É o lindo milagre da amizade.
Daniel tem uma carreira eclética, com uma tragetória profissional que inclui grandes e pequenos jornais; anos em uma agência de publicidade, co-fundada por ele, e agora era gerente de comunicação de uma grande multinacional brasileira. Tava se segurando na crise mundial, tendo que cortar despesas, em suma todas as atividades que a empresa promovia e que eram as que ele mais curtia - e ainda escutar o Lula dizer que a crise mundial não atingia o Brasil -, mas nada que abalasse seu ânimo. Eu segui um caminho diferente depois de anos como jornalista organizacional decidi assumir o que gostava: Comunicacao Internacional. A mudanca para o Canadá e o divórsio, devo admitir, vieram a calhar. Como costumo dizer: - Estou solta no mundo. Minha vida ficou sob medida para o mundo. Carrego a minha criança numa mão e a mala na outra. E lá vamos nós, Maria et Moi, mundo afora.
Durante o rápido encontro na esquina, trocamos telefones e ficamos de nos ver antes do meu retorno ao Canadá. Quinta -feira às 14 horas ele me buscou na saída do mêtro Sãens Peña e demos um giro por Santa Teresa. Foi ótimo reencontrar o Daniel. Ele me contou que se casara: - de verdade. No civil e no religioso. "Tudo direitinho". Mas havia se separado após um ano e meio, e agora dois meses depois da separação tinha voltado com a esposa, de 20 anos de idade, sem profissão e que, segundo ele, nao pode me conhecer porque eu sou má influência para ela. - Ela quer trabalhar com Relações Internacionais e quer ganhar o mundo. Ela não pode conhecer você, foi categórico.
-Ela fala idiomas, Daniel?
- Nada, disse arrastado. Ainda nem entrou na faculdade. Antes de me conhecer morava com a avó em Campo Grande.
- Então ela ainda tem um longo caminho a seguir. Tem que cursar a faculdade aprender línguas, se especializar..., analisei.
- Isso você pode dizer para ela.
E continuou. - Ela tem 20 anos, mas sou louco por ela. Ela é uma mulher sabe?!
-Ah qualé Daniel?! Você tá amarradão tudo bem. Mas não vem com esse papo. Assume o risco e pronto.
Nesse momento, para minha surpresa, saiu da boca dele uma das declaracoes que mais me chocaram nos últimos tempos: "-Ela tem o frescor que eu não quero perder".
Não pude acreditar no que estava ouvindo. Aquele cara bacana, antenado, ativo, ainda na casa dos 30... Meu Deus seria mais um caso angustiante de Sonorité Trompeé?
De volta à Montréal - Balanço
De volta à Montréal, bronzeada, uns quilinhos a mais - o que no meu caso caiu bem -, fui a quase tradicional Sexta do Vinho. Uma reunião prá lá de informal, na qual tem gente(abusada) que vai de chinelo e com o cabelo desgranhado mesmo, mas... O grupo é basicamente de moradores do prédio, com umas três à cinco presenças externas prá lá de carimbadas.
O negócio é: toda Sexta-Feira o grupo se reune no apartamento de alguém do 7425 Chemin Canora e cada um leva um vinho, um queijo ou qualquer coisa, até Ice Thé em pó vale. O negócio é o papo que vai de dicas de onde investir neste tempo de crise, ao québécois que tem um açougue em Brossard (cidade vizinha) e corta a carne do jeito brasileiro. "Aprendeu com um gaúcho que passou por lá", garante quem já comprou carne lá. Então... - Se alguém for a Brossard trás carne prá mim! - Alguém grita.
Como era o meu primeiro encontro com o grupo depois de chegar do Brasil, queria saber das novidades. Eles também. Então: - primeiro eu! Falei sobre a minha viagem, que nem de longe foi a lazer. Pensa: primeiro encontro com o Leandro e sua nova família, que já existia quando eramos casados e cujo aniversário de um ano da filha - após 1 ano e sete meses de separação, não deixava mas qualquer chance ao famoso benefício da dúvida. Era adultero sim. E engravidou uma das amantes ainda casado comigo. SAFADO!
Não é fácil ouvir da boca da milha ingênua filha o quanto a tia Lú é legal.
Só para explicar: tia Lú, é a forma como a Maria chama a ex-amante e atual vítima do Leandro, que como não é bobo arrumou uma amante com o mesmo nome da esposa. Com isso resolveu o risco, na época, do tal ato falho de chamar a esposa pelo nome da amante.
- Ô! Você não tem idéia de como a tia Lú é legal! respondo, segurando a língua. Ela só tem quatro anos. Um dia vai saber.
Outro desafio foi estar com parte da minha família que ainda mora na cidade. Ver minha irmã sendo massacrada pelo cancêr foi duro. Agora eu entendo um pouco sobre a luta contra o cancêr: a pessoa luta contra a doença, contra os efeitos colaterais do tratamento, contra a piedade infrutífera dos que o cercam e contra a auto-comizeração. É uma batalha para grandes. Eu espero que a minha irmã seja uma delas.
E o Rio de Janeiro? - O que o pessoal queria mesmo era saber das minhas impressões de retorno em relação ao país, especificamente sobre o Rio de Janeiro, já que a grande maioria do grupo é formada por cariocas ou de gente que morou na cidade.
Não deu para falar sem um ar de decepção. Claro, antes de começar o meu relato lembrei o fato de que estive na cidade em um momento de transição política. Um prefeito, Cézar Maia, que exercera três mandatos, sendo os dois últimos consecutivos, estava sendo substituido por um outro, Paes. A cidade estava "meio" abandonada, suja, com muita gente, sobretudo crianças, nas ruas. Música de péssima qualidade difundida nas ruas, tráfego e tráfico loucos, e um índice de poluição que levou, Maria et Moi, a consultas com uma oftamologista.
- Fizemos a melhor escolha, concluí. No que todos acenaram concordando. Foi o único momento sem palavras daquela noite. Pausa para esvaziar o copo.
A impressão que fica é de que quando mudamos de país somos assaltados pela nossas melhores lembranças da terra deixada para trás. O começo da noite quando brincavamos de Polícia e Ladrão na Voluntários da Pátria - já naquela época o grupo dos ladrões era o mais disputado. Das partidas de futebol no estacionamento do Metro de Botafogo, onde eu era sempre a única garota do grupo e era obrigada a participar da conversa dos meninos como se eu não existisse. Eu não era como eles, tão pouco uma das meninas que povoavam o imaginário colêtivo daqueles meninos do ginásio. Era só a irmã do Marcus e do Alexandre, que servia para completar o time, quando não havia outra solução.
É tão vivo ainda os dias de praia. Posto 9 com os pais e 10 com os amigos, seguido muitas vezes de um banho de cachoeira nas Paineiras. O Rio da família grande no carro apertado, do apartamento térreo, sem grades nas janelas e com a porta sempre destrancada. Me lembro da cordialidade, da gentileza, do sorriso franco e aberto, da beleza honesta, da boa música, da amizade fácil, do tempo em que ainda não tínhamos medo dos próprios empregado, nem dos vizinhos. Este Rio não existe mais. Na verdade é por isso que imigramos, mas uma vez no exterior essas lembranças nos enganam, e por vezes é preciso regressar para não deixar dúvidas.
A cidade esta como antes: suja, violenta, agressiva, cheia de descontentes. Meu pai enterrado, em um cemitério de subúrbio. Logo ele que nasceu e cresceu de frente para o mar. Meu único irmão de sangue cada vez mais parecido com a cidade e mais distânte que o Canadá. Distância essa agora justificada pelo excesso de trabalho.
O restante da família está na Internet, a milhares de quilômetros do Corcovado.
Há muito pouco naquela cidade que me dá prazer. Porque, meu Deus, ainda sinto saudades dela?
Para espairecer um pouco fui à cozinha onde os homens estavam reunidos. Em alguns minutos eu entendi muita coisa. Papo de homem: difícil de aturar.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Proibida de cozinhar
Estava no Messenger com uma minha amiga, absurdamente otimista, quando um forte cheiro de queimado me lembrou: - O macarrão!
Corri para a cozinha e a panela já estava preta com o pobre do espaguette grudado no fundo.
Lamentei pelo macarrão, sofri pela panela, mas o que realmente me fez entrar em estado de contrição foi pensar: - Meu Deus! Luciana você conhece alguém que queima macarrão?
Uma criatura como essa devia ser proibida de cozinhar.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Pessoas que entram na nossa vida por uma razão - Epílogo
Ele me aconselhou a procurar um advogado e ficamos de nos falarmos mais tarde. A amizade evoluiu, no que tinha para evoluir. Ele me enchia a bola eu fazia o tipo sexy-inteligênte. Falavamos sobre música, cachorro, filosofia, religião. A conversa era ótima. Tinha que ser! Era só o que tínhamos. Sugeri (várias vezes!) o contato pessoal. Eu queria 1 à 1, mas ele insistia no 0 à 0, como numa música do compositor brasileiro Djavan.
Claro que não segui como sua paciente e ao longo de quatro meses só nos vimos três vezes.
Ele me tetiava, como um menino hábil com a sua pipa. Me engordava mas não me comia (por favor isso é uma alusão ao conto João e Maria). Sempre "trabalhando muito", em muitos lugares diferentes, e ainda dizia que eu não estava preparada, tinha acabado de me separar.
Na verdade ele não queria se arriscar. Eu não valia à pena, não tinha futuro. Com viagem marcada para o Canadá, falei com todas as palavras que não mudava mais de planos por homem algum.
Um dia ele confessou: - vai que eu levo uma chave de pernas e me apaixono. Como é que fica?
Não disse, mas pensei: - você fica, eu parto.
Dia dos namorados chegando ele me pergunta sobre o seu presente.
- Que presente? Algum motivo especial?, me fiz de besta.
- Você é minha namorada virtual.
- Então o presente é virtual. Saquei! O teu negócio é brincar ao telefone. Você morre de medo de mim. Há! Há! Há!
- Luciana, eu não tenho medo de mulher.
- De mim você tem.
- Não vou discutir isso.
Na ante véspera de me mudar para o Canadá fui ao seu consultório pegar uma receita - para o anti-depressivo que levaria - e deixar um leão de pelúcia que comprei para ele e o CD Perfil, da Adriana Calcanhoto, que ía comigo para não importa aonde.
- Quero que você ouça esse CD para me conhecer um pouco mais. Também queria mandar fazer um jaleco para o leãozinho com as suas iniciais, mas não tive tempo. Vê se não deixa a Penélope (sua cadela) brincar com ele. Não gostaria que ele acabasse com uma cachorra.
- Pode deixar. Ele não vai acabar com uma cachorra.
Beijei-o na testa, nos olhos, no nariz, na boca e parti. Não havia mais tempo. Era claro que ele já tinha alguém. Alguém que provavelmnente não amava, talvez nem mesmo assumisse, mas que estaria lá, por perto.
Por alguns meses a lembrança das nossas conversas me acalmou a alma e com o tempo, como tudo, ela virou vapor e esvaneceu deixando um leve e agradável aroma.
Na verdade eu só entendi muito depois, que o tempo havia se cumprido. Após quase um ano e meio, no meu primeiro retorno ao Brasil, e uma consulta médica formal com o Doc é que compreendi que pessoam chegam e partem. Algumas farão parte das minhas melhores lembranças - lugar onde elas devem ficar. São aquelas que chegam para nos ajudar a manter a cabeça fora d'água. Mesmo que para isso nos peguem pelo pescoço. Essas veem para nos dar esperança, Nos ajudar a voltar a acreditar. São como promessas emocionais de que tudo vai ficar bem. Depois do tempo cumprido é preciso deixa-las partir em paz.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Pessoas que entram na nossa vida por uma razão - 2ª Parte
Em uma cadeira ordinária do outro lado da mesa, como qualquer paciente, ouvi a pergunda mais indiferente do mundo, mas para a qual não estava preparada naquele momento: - COMO VOCÊ ESTÁ?, perguntou o médico.
É claro que eu sabia que não havia ali o menor interesse em saber se eu estava a beira de um suicídio. Ele queria saber o que me levará lá. Se o meu problema era estético ou médico.
Mas... no impluso respondi: - Bem. Considerado o fato de que meu pai morreu e o meu marido me deixou nas últimas semanas.
- Como é que é?, o doutor, também pego de surpresa, perguntou.
- Estou bem. Considerado o fato de que nas últimas semanas eu perdi o meu pai e o meu marido foi embora, após sete anos de casamento, sem me dar qualquer satisfação. Partiu como quem sai ser dizer tchau a moça do balcão. Normal...
- Minha mulher também me deixou. Faz dois anos.
- Uau!
Assim começou o que eu chamo de mais uma das minhas muitas novas amizades de infância.
Tívemos um breve momento de confidências, em que ele me contou como após uma tarde animada em um motel, onde eles íam habitualmente, ela disse que queria que ele deixasse a casa e que, gentilmente, lhe daria um mês.
Exatamente após um mês, na volta da praia ela lhe disse, - acho que já está na hora de você ir, continuou o doutor. -Ela me esperou na porta com uma mala, pediu a cópia da chave e disse para as crianças, que choravam, digam adeus ao papai porque agora ele não mora mais aqui.
Ouvi e pensei: não sei que tipo de marido ele era, mas sei, por experiência própria, da indiferença que uma pessoa que dormiu com a gente por anos é capaz de revelar. E não há vínculos que amoleça um coração acostumado a infidelidade. Anos de dedicação e afeto, sacrifícios, promessas e até mesmo filhos podem valer bem menos que o medo da multa de uma rescissão de contrato.
Porque pode ter absoluta certaza, nessa hora o amor da nossa vida está mais preocupado com a contabilidade financeira do que com a falência emocional e moral que ele pode estar decretando a você e aos próprios filhos.
Compartilhamos mais algumas confidências que nos embaraçavam e feriam. Após nossa conversa ele analisou minhas veias dilatadas, fez uns testes e saí do consultório com seu telefone e a impressão de o "- se você quiser conversar me liga." era sincero.
É. Eu ainda acredito que exista sinceridade nos homens. Não em todos, nem em todo tempo. Em alguns homens ela se faz presente em alguns momentos. Em outros, cada vez mais raros, ela é um traço de personalidade sim. O problema é que esses são em grande parte os malucos que "não querem nada". Justamente por que são sinceros não se engajam.
Mas voltando ao doutor, ele
seria um dos meus melhores amigos dos últimos tempos. Ao menos dos últimos dez minutos, que na verdade duraram 4 meses.Nosso relacionamento se passou basicamente por telefone. A primeira ligação se deu poucos dias depois, guando saí do banco, onde tinha algumas contas com o meu "marido". Elas ainda existiam, digo as contas, já o dinheiro...
No momento da descoberta de mais este rastro de abusos, que o marido dos sonhos deixara, não tive coragem de confessar à família - já tão machucada com a perda do seu patricarca e o caso do que seria o primeiro divórsio da casa.Confessar aos amigos também parecia-me difícil. Até porque ainda não sabía quem eram. Numa separação eles são um dos primeiros bens que entram na partilha, às vezes até mesmo antes dos filhos. E depois não é fácil falar para alguém que te conhece, e para quem você sempre se mostrou vitoriosa, que o seu adorável marido não só te deixou como te faliu.
E foi ali, dentro de uma agencia bancária, agachada em um canto na esperança de que ninguém me ouvisse, que telefonei pela primeira vez para o meu primeiro melhor amigo de infância, dos últimos tempos...
Pessoas que entram na nossa vida por uma razão - 1ª Parte
Duas semanas e meia depois que meu marido deu no pé e foi curtir sua vida de solteiro no Rio, resolvi me cuidar. Já estava deprimida tempo suficiente para enjoar de mim mesma e resolvi tentar tocar a vida. O primeiro compromisso pessoal, agendado algums dias antes num esboço de reação, não era lá muito estimulante, mas eu precisava começar por algum lugar.
Abri minha agenda e... 13h angiologista.
Previ uma espera longa - digna do SUS de décadas atrás, quando se aguardava por horas uma consulta com a esperança de que o atendido se daria - assim que abri a porta daquela clínica apertada em um andar alto de um prédio comercial na Tijuca. Clínica? Na verdade um consultório dividido e espremido em espaço e gente, que apesar de particular exigia que seus freqüêntadores fossem realmente pacientes.
Tudo bem! Ocuparia meu tempo vendo fotos de revistas de colunáveis (para as quais eu ja escrevera com pseudônimos divertidos, aquelas que a gente nunca compra, mas não perde a oportunidade quando elas surgem a nossa frente.
Após cerca de 40 minutos, uma breve conversa aconteceu. Com a clínica bem mais vazia perguntei a mulher ao lado: - Ele é bom? Não tenho dado sorte. A última vez que tentei pensei que a médica ía calterizar minhas varizes com o cigarro que ela equilibrava acesso, hora entre os dedos, hora entre os lábios. Um horror!
Com aparência de pouco mais de 40 anos - talvez envelhecida pela franjinha que caía sobre a testa - ela me respondeu em tom baixo, como quem confidencia um segredo sem grande importancia: - ele é ótimo! Na verdade ele é meu primo, ficamos muito tempo sem nos ver, mas estou fazendo aplicações com ele e é ótimo. De verdade!
Ela foi a seguinte e entrou como quem ía fazer mais uma tatuagem ou colocar um segundo piercin. Sem a exitação de uma primeira vez, mas numa animação que dizia: - Não tem problema se doer. É tão legal!
Gostei da prima. Sério! Ela me pareceu sincera, e eu já estava lá mesmo ía ficar mais um pouco. Não sou do tipo que desiste sem tentar. Horas eu casei com o Leandro!
Beijinhos, tchauzinhos - entre o médico/primo e a prima/paciente - ela saiu com um ar tão contentinho que pensei: - deve ser de graça. Ao menos ele é um fofo...
- Luciana Serafim!
- Rodrigues! Luciana Rodrigues(disse entre os dentes para mim mesma) - Puta que pariu (pensei). Que merda essas carteirinhas de plano de saúde usarem sempre só o último sobrenome. Péssimo começo, segui pensando em direção a porta do consultório...
Obs.: Naquele momento descobri que eu não só teria que carregar, por muito tempo, um nome que me irritava, como era capaz de falar palavrão. Vários na mesma frase. Eu, definitivamente, havia mudado.
Imagine... Sem preconceitos
Hoje abri uma daquelas mensagens com pretensões filosóficas que a gente receber a torto e a direito, e a trilha sonora não podia ser mais evidente, imagine? Isso mesmo: Imagine, de John Lennon. E o pior é que nem aquelas fotos lindas e óbvias de catálogos de imagens tinha, mas abri. Meio que para mostrar a mim mesma que apesar de achar que estava ocupando meu tempo com nada tinha uma certa simpatia pelo carinho demonstrado pela ex-vizinha que encontramos, Maria et moi, num centro comercial do Rio pouco antes de voltar, e que desde então não para de me encaminhar mensagens de encorajamento e insentivo.
Voltando a mensagem postada... Não é que ela era boa! E perfeita para mim! Falava exatamente sobre o momento que vivo agora, de compreender - sem a dor do apego desnecessário - o porque das pessoas entrarem na nossa vida. Que segundo o texto podem ser por uma razão, por uma estação ou por uma vida inteira".
Resolvi, então, me propôr um exercício de colocar algumas pessoas nos seus devidos lugares...
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
A Fraternidade é Vermelha
A Fraternidade é Vermelha, segundo o filme do polonês Krzystof Kieslowski. Ontem o assisti pela segunda vez ao longo de mais de dez anos. Desta vez sem legendas.
Estou recuperando o prazer de ter contato com o sensível. Acho que o trauma está passando e a dor ficou menor. Aos poucos volto a me emocionar sem cair por terra.
Desta vez a Maria não estava comigo, ela dormia esperando a Tal que tem obsessão por dentes.
Projeto 4.0 Turbo
Foi dada a largada para o Projeto 4.0 Turbo - comprei na Zara um vestido para o meu próximo aniversário. Estavamos juntas Maria et moi, é claro.
Perder ônibus quando faz - 20º C é...
Hoje fiz a inscrição da Maria na École Saint-Clement, em Ville Mont-Royal. Maria está super animada e foi comigo, porque mais uma vez acordamos tarde e não teríamos tempo de passar na garderie. Antes de sair de casa liguei para a secretária da escola e disse que tivemos um imprevisto e perguntei se poderíamos ir mesmo atrassadas. A secretária disse que talvez teríamos que aguardar um pouco, mas consentiu e assim seguimos a pé num frio de quase menos 20º C. Tudo bem. Paramos no banco para ver o tamanho do problema e nos aquecermos um pouco.
Na escola esperamos o tempo suficiente para tirarmos as roupas - que não usaríamos nem em um ano de Brasil - e preenchi a ficha de inscrição. A secretária, na verdade a responsável pelo serviço de guarda da escola (uma espécie de créche para as crianças que precisam ficar mais tempo na escola porque os pais trabalham - Oh! Canadá), é francesa, rápida e muito simpática. É incrivel como os franceses no Canadá são simpáticos (generalizando). Tudo correu bem, mas ainda temos dois encontros marcados para conhecer melhor a instituição. Já sei que o ônibus escolar virá busca-la e deixa-la todos os dias, o que facilitará incrivelmente a nossa vida. Ah! Quando setembro vier...
Perdemos o ônibus que passa na rua da escola a cada 30 minutos. Nem tudo é perfeito. Como eu também perdi o chipe do meu celular durante a viagem ao Brasil (como alguém perde o chipe do celular? Pois é, perdi) precisava comprar outro. Saímos da escola, Maria et moi, e caminhamos em direção ao ponto de ônibus. No caminho a minha princesa se jogou na neve e fez todas as palhaçadas possíveis, como por exemplo dizer que não queria andar. Resultado: o ônibus passou e nós ficamos. Durante os 30 minutos que antecederam o ônibus seguinte discutimos, gritamos uma com a outra, fizemos pirraça, cantamos e pulamos para não congelarmos por completo - uma vez que eu já não sentia os dedos das mãos. Por fim chegamos ao Rockland Center - semi descongeladas - e além do chipe, compramos algumas outras coisinhas. Afinal, cá prá nós, desgraça pouca é mesmo bobagem.
Um anel de ouro e dois dólares
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Mestrado e hamburguer
Na universidade gastei um tempo fazendo cópias dos meus documentos. Maria teve bom ânimo e me ajudou colocando moedas e apertando o botão da copiadora. Claro, tudo tem seu preço: morri em 25 dólares por dois hamburgueres chechelentos em um restaurante da Universidade.
Quarta-feira tenho uma segunda reunião com a diretora do programa. Vamos ver no que vai dar. Preciso dessa vaga! preciso dessa bolsa! Tá cada vez mais difícil pagar hamburgueres de 25 dólares.